Análise: Por que depender do iPhone pode ser uma jogada perigosa para a Apple

Na última quinta-feira (01/11), a Apple anunciou um faturamento trimestral recorde de US$ 52,5 bilhões. No entanto, outro anúncio também chamou a atenção do mercado. A partir de dezembro, quando a companhia deve revelar o seu próximo relatório, os números de vendas de iPhones, iPads e Macs não serão mais divulgados. No lugar, serão mostrados apenas os resultados financeiros de cada divisão.

Embora oficialmente a Apple comente apenas que este dado não é significativo, a razão por trás da escolha parece clara para analistas: as vendas de iPhones perderam o fôlego. Entre julho e setembro, a companhia de Tim Cook vendeu 46,89 milhões de smartphones no mundo contra 46,67 milhões no mesmo período de 2017. Ou seja, um aumento de pouco menos de 0,50%. E essa estabilidade pode representar um risco em uma empresa tão dependente do iPhone. 

Dependência do iPhone

Dos US$ 62,5 bilhões faturados pela Apple no último trimestre, pouco mais de 59% (US$ 37,185 bilhões) vieram do iPhone. Apesar dos esforços de diversificação de receita da companhia de Tim Cook, os outros setores sequer chegam perto desse volume: a divisão de serviços aparece com uma fatia aproximada de 16%, a de Mac com 12%, iPads com 6% e a de Apple Watch e outros produtos com 7%. Ou seja, US$ 6 a cada US$ 10 ganhos pela Apple vem do iPhone.

E este cenário da companhia tem se agravado: os atuais 59% de participação de iPhones na receita da companhia eram 56% no último trimestre e 54% no mesmo período de 2017. Por isso é compreensível que a empresa tente mudar o foco do número estagnado de vendas para as receitas dos smartphone. Afinal de contas, é muito melhor mostrar a margem de lucro astronômica que a companhia tem ao vender cada unidade do seu smartphone. E que serão infladas pelo salto no preço do iPhone XS e XS Max.

Ainda assim, as perspectivas não são muito boas.

O último relatório de vendas globais de smartphones divulgados pelo IDC mostra uma desaceleração, com uma queda total de 6%. Entretanto, os resultados são ainda mais desanimadores para Apple, que ocupa o terceiro lugar no ranking de fabricantes. Apesar da variação anual positiva de 0,5% em setembro, a dona do iPhone viu a Huawei se distanciar no segundo lugar com um crescimento de 32,9% e a quarta colocada Xiaomi encostar com um aumento de 21,2% na comecialização de aparelhos.

Com isso, atualmente, a Samsung lidera a venda de smartphones pelo mundo, com 20,9% de participação mercado de smartphones, seguido pela Huawei, com 15,8% (a empresa ultrapassou a Apple em agosto último). Em terceiro vem a Apple, com 12,1% e com a Xiaomi se aproximando perigosamente, com 9,3% de marketshare. E não podemos nos esquecer da também chinesa Oppo, que vem comendo pelas beiradas e já conta com 8,6% do mercado. 

E se nos EUA, a Apple ainda tem público muito forte, a pressão por parte das companhias rivais tende a se tornar ainda maior fora do mercado americano. Afinal, enquanto a empresa de Tim Cook tem subido consideravelmente o preço de seus produtos desde o lançamento do iPhone X, quando passou a cobrar US$ 999, marcas como a Xiaomi, Huawei, Oppo e OnePlus crescem oferecendo smartphones Android com boas configurações a preços bem inferiores. E tudo indica que nem mesmo o iPhone XR, opção mais barata, está tendo uma recepção calorosa por parte dos consumidores.

E com menos pessoas comprando um iPhone, o crescente setor de serviços também tende a ser prejudicado. Afinal, boa parte das vantagens de serviços como o Apple Music, iCloud, Apple Care, iTunes e Apple Pay está justamente atrelada ao smartphone. Embora esses aplicativos estejam disponíveis nos Macs, iPads e Apple Watch, a venda desses dispositivos ainda é bastante irrisória para impulsionar os serviços.

Além disso, se a Apple também não pode depender muito de seus outros produtos para diversificar sua receita. Isso porque todos eles contam com fortes concorrentes em seus setores e que também oferecem seus produtos a preços mais em conta. 

E as outras gigantes da tecnologia?

Além da Apple, outras gigantes da tecnologia também divulgaram os seus resultados financeiros na última semana. E analisando de perto suas fontes de receitas, podemos notar que a companhia de Tim Cook se encontra em um cenário menos favorável do que as suas rivais.

Vamos começar pelo Google, que talvez seja a companhia com distribuições de receitas mais preocupantes ao lado da Apple. Dos US$ 33,594 bilhões registrados pela gigante de buscas no último trimestre, 86,2% vieram de publicidade online. Enquanto isso, produtos como Android, aplicativos de produtividade e serviços de nuvem registraram apenas uma fatia de 13,8% do total.

No entanto, a grande vantagem para o Google é que não há nenhuma competidora ameaçando o seu domínio no crescente mercado de propaganda online, seja no desktop ou no mobile, onde o seu Android é dominante. Em 2017, o Google Ads e AdSense eram responsáveis por 44% das receitas globais de propaganda online, bem distante da fatia de 18% abocanhada pelo Facebook. Enquanto isso, essa distância no mercado norte-americano era de 38,6% a 19,9% a favor do Google.

Como é possível perceber, o Google está em um cenário competitivo no mercado de publicidade online bem mais favorável do que aquele encontrado pela Apple em smartphones. Além disso, é preciso destacar que a gigante da internet também tem feito bastante investimentos para crescer no lucrativo mercado corporativo e de infraestrutura de nuvem, que são mais estáveis do que a venda de produtos para consumidores finais. Além disso, a empresa vem investindo em uma série de outros produtos, incluindo hardware (os smartphones Pixel, o bem sucedido Chromecast e o assistente pessoal Google Home) e carros autônomos, por exemplo. E em todos eles a empresa pode continuar com sua estratégia de publicidade online. 

Partindo para a Amazon, outra gigante da tecnologia, a perspectiva é um pouco mais animadora do que a Apple. No último trimestre, a companhia registrou uma receita de US$ 56,6 bilhões, sendo que 61% dela vieram das vendas na América do Norte, 27% do comércio eletrônico internacional e 12% do divisão de nuvens Amazon Web Services. Apesar da concentração, outros setores-chaves da empresa apresentaram um crescimento considerável no período.

Entre julho e setembro, o AWS, que é líder no fornecimento de infraestrutura de nuvem, cresceu impressionantes 46% em relação ao mesmo período do ano anterior. Algo bem diferente do que acontece com o iPhone. A empresa, que surgiu como um grande balcão de negócios online, está conseguindo se consolidar também como uma fabricante de produtos como Kindle e equipamentos com assistente pessoal Alexa, que superou rivais como Cortana e Siri em alguns segmentos. Além disso, com a Alexa, a empresa ainda aposta no crescimento do mercado de casas conectadas, cujos itens como lâmpadas e caixas de som inteligentes podem ser comprados na...Amazon!

E o prêmio de empresa que melhor soube diversificar suas receitas vai para... 

A Microsoft! Sim, é isso mesmo. A companhia criada por Bill Gates e Paul Allen foi a que melhor soube  se reinventar e diversificar suas receitas, escapando da dependência do Windows. Embora seu sistema operacional e outros produtos para consumidores tenham visto sua relevância cair nos últimos anos, a empresa, principalmente sob o comando de Satya Nadella, aumentou bastante a sua participação no mercado de computação de nuvem e de aplicativos de produtividade. Basta observar a divisão da receita de US$ 29,084 bilhões do último trimestre.

No documento, divulgado no último dia 24, o segmento de Windows, Xbox One e outros produtos voltados para consumidores foi responsável por 37% das receitas da Microsoft. Enquanto isso, o setor que cuida do Office, LinkedIn e softwares para empresas registrou uma participação de 33,6%. Por fim, o Azure e outros serviços de nuvem da companhia obtiveram 29,4% das receitas. O equilíbrio é ainda maior do que o registrado em 2017, quando a distribuição era de 38,2% , 33,6% e 28,2%, respectivamente. Ou seja, a empresa tem um tripé firme para se apoiar em caso de crise.

Ainda que a Microsoft tenha lucrado bem menos do que a Apple no terceiro trimestre, a empresa sofrerá muito menos  com eventuais mudanças de humor dos mercados. Afinal, boa parte dos US$ 52,5 bilhões do lucros da companhia de Tim Cook tende a ser drenado em caso de vendas fracas do iPhone. Já a Microsoft não perderá tanto caso o Windows 10, o Xbox One e seus serviços para consumidores tenham resultados catastróficos, uma vez que o Azure e o Office poderiam amenizar esse impacto.

Então a Apple corre o risco de falir lá na frente?

É um cenário altamente improvável. A empresa tem em caixa mais dinheiro do que o PIB de muitos países e pode se dar ao luxo até mesmo de baixar os preços de seus iPhones sem sofrer muito. Isso porque, como dissemos antes, a margem de lucro da companhia com seus produtos é bastante alta. Além disso, ela pode investir na compra de outras empresas e investir no desenvolvimento de novos produtos que a tornem referência em outros setores. Sem contar na força que a marca ainda possui entre os consumidores. 

No entanto, é também improvável que a empresa continue a surfar por muito mais tempo na onda de vendas do iPhone. O fraco crescimento de vendas ao longo dos últimos trimestres é um indicador disso. Além do que, é preciso se perguntar até quando os consumidores de seus mercados mais fortes vão aguentar pagar US$ 1 mil por um aparelho que encontra concorrentes tão bons quanto e mais baratos. 

Ainda que suas receitas recordes de 62,5 bilhões sejam, sem dúvida alguma, um indicativo que a Apple ainda vai “muito bem, obrigado”, é preciso observar as tendências do mercado. A médio e longo prazo, empresa tende a correr um grande risco se continuar muito dependente do iPhone e do estagnado mercado de smartphones. Por isso, não estranhe ao ver tentativas mais agressivas da companhia de Tim Cook em crescer em outros segmentos nos próximos anos. 

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